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Passa lá!
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Quem passa por aqui de vez em quando sabe que o Bicho está sumido. Há até leitores mais fiéis que insistem em pedir notícias, e muitas vezes acabamos não respondendo por falta de desculpas.
Mas chega de mea culpa que agora temos novidades: está saindo fumaça (e cheiro de comida) da cozinha do Que Bicho. Estamos finalizando um app pra iPhone com o que nós – e alguns amigos tarados por comida – gostaríamos de ter à mão quando a fome aperta em São Paulo. Não a fome que se resolve com o chocolate que está envelhecendo na gaveta, mas a de comer algo delicioso, específico, naquela hora. De preferência, sem estourar o limite do cartão de crédito, em um ambiente compatível com o seu estado de espírito, melhor ainda se for por perto.
Para colocar o novo monstrinho de pé, vasculhamos nossos arquivos e nossa memória afetiva para escolher os 50 restaurantes que a gente realmente gosta, recomenda, não cansa de visitar. Experimentamos alguns lugares novos e promissores, e incluímos um ou outro no caldo. De bônus, listamos poucas e boas lojas (de utensílios, rotisseries, supermercado, casa de carne, peixaria e afins) para quem gosta de cozinhar em casa.
E lá foi o japa aprender a programar os códigos, a desenhar a interface e a tornar possíveis os salamaleques que fomos acrescentando ao projeto (só japa, mesmo). A equipe da PiU Comunica cuidou da edição do conteúdo, dos testes de usabilidade e da atualização das informações para ficar tudo redondo. E passamos meses brincando com o nosso app para ele ficar do jeito que a gente quer – e, esperamos, que você também.
Agora que estamos nos finalmentes, não vemos a hora de colocar o filhote no mundo. Se você quiser ser avisado do lançamento em primeira mão, deixe seu e-mail na caixa de comentários (os contatos não serão publicados, ficam entre nós). Tem alguma sugestão? Fique à vontade também (que venham as atualizações!).
E entre uma refeição e outra, vamos nos falando.
Publicado originalmente no blog Mesa ou Balcão?, da revista ALFA.
No sábado passado, tive o privilégio de experimentar a comida do chef carioca Rafa Costa e Silva, em sua fase pós-Mugaritz. Ele montou um menu completo para 120 pessoas na Bodega Trapiche, em Mendoza, durante o Masters of Food and Wine. Por sorte, os mais de 100 quilos de ingredientes brasileiros trazidos na bagagem do chef e de seu assistente passaram ilesos pela alfândega argentina.
Nacionalismos à parte, foi o melhor jantar do evento, que contou com grandes chefs da Argentina, EUA, México, Chile. Os pratos tinham bons ingredientes, criatividade, técnicas diferentes. E – coisa rara – muita clareza nos sabores. Aqui, a sequência completa do menu:
Os petiscos mexiam com memórias brasileiras. Havia barriga de porco tratada como Baconzitos, tiras de orelha de porco, amendoim, castanha de caju e do Pará, polvilho salgado com um toque de açúcar, homenagem aos biscoitos Globo cariocas.
Primeira entrada: pepino, iogurte e espuma de beterraba.
Segunda entrada: gema com consistência de pudim (como se espera do chamado ovo perfeito), sobre “clara” de purê de inhame com coco. Acompanhava um inédito chip de carne seca. O processo, segundo Rafa, é primeiro congelar e fatiar a carne, para depois desidratar.
Detalhe dos bastidores: o Roner, máquina milagrosa que deveria ter feito os ovos perfeitos sem traumas, pifou – problema de compatibilidade com a rede elétrica da bodega (e com o eletricista que tentou ajudar e só piorou as coisas). Acontece nos melhores eventos. Surpresa mesmo foi o Rafa ter conseguido servir 120 ovos perfeitos sem o aparato high-tech.
Primeiro prato: peixe com pérolas de tucupi e uma fina lâmina de gordura de porco por cima de tudo. Interessantíssimo. Poderia ter sido o melhor prato da noite, se o tucupi do sagu estivesse mais ácido e perfumado.
Segundo prato (o melhor): cochinillo com gratin de mandioquinha. O porquinho estava delicioso, como só os espanhóis conseguem fazer, com a pele estalando de tão crocante, a gordura gelatinosa, a carne se desmanchando. O gratin de mandioquinha era levíssimo, muito bem montado. Foi uma ótima companhia para a carne.
Caldo digestivo: a combinação de ingredientes era misteriosa. Tinha um toque de nam-pla (molho de peixe fermentado), um toque de dashi (o caldo base japonês). Era, enfim, um superconcentrado de umami, que acalmava as papilas para o final do jantar.
Sobremesa: goiaba com creme de queijo. A goiaba (tratada em cal), ao ser cortada, se desmanchava em uma deliciosa goiabada cremosa. Como num petit gâteau. Genial.
É imediato – e inevitável – associar a comida do Rafa com a do restaurante paulistano Maní. Em ambas, é clara a influência da cozinha espanhola de vanguarda. Há a preocupação em usar memórias e produtos brasileiros. Ambas usam técnicas de ponta para tentar exprimir melhor o sabor dos ingredientes.
Mas há muitas diferenças também. Perdoem falar sobre o tempo. Mas a cozinha do Maní sempre me lembrou uma manhã de verão. A do Rafa, com sua benvinda predileção às receitas com porco, remetia mais a um fim de tarde de outono. Complementares, cada uma no seu momento – como São Paulo e Rio. Tomara que o restaurante do Rafa saia logo do papel, seja qual for o lado da ponte aérea.
Publicado originalmente no blog Mesa ou Balcão?, da revista ALFA.

Rafa Costa e Silva, quando era subchef de Andoni, do restaurante basco Mugaritz. Foto de Per-Anders Jörgensen.
Ainda não é no Brasil. Mas está chegando perto. Rafael Costa e Silva vai preparar nesta sexta um jantar de cinco etapas na Bodega Trapiche, em Mendoza, durante o Park Hyatt Masters of Food & Wine. Até o ano passado, o carioca Rafael era o número dois do restaurante basco Mugaritz, o terceiro melhor do mundo, segundo a lista da Restaurant. Em janeiro deste ano ele voltou ao Brasil, com planos de abrir seu próprio restaurante. O mundinho gastronômico está ansioso pela abertura de sua casa. Tive uma rápida conversa com Rafael por telefone:
Como anda o projeto do seu restaurante no Brasil?
Estou ainda à procura de um investidor e de um ponto no Rio de Janeiro, com preço razoável, sem uma luva astronômica. No Rio, os preços são comparáveis aos de Nova York. Fora do normal! Em São Paulo talvez seja mais fácil. Mas sou carioca, gostaria muito que meu restaurante fosse no Rio.
Quem participar do jantar em Mendoza vai ter uma ideia da cozinha que você pretende fazer no Brasil?
A filosofia será a mesma: uma cozinha de terroir, de produtos e de temporadas, com técnicas apuradas. Usarei produtos de lá da Argentina. Mas quero também colocar um pouco de ingredientes brasileiros no menu do evento.
O que você está levando nas malas para Mendoza?
Muitas raízes: mandioquinha, inhame. Carne seca, tucupi, goiabada.
Você tem uma ideia do cardápio do jantar?
Se tudo der certo, vou servir um polvilho, recordando em sabor e formato os biscoitos Globo, do Rio. Vou preparar algumas castanhas do Brasil, cozidas em caldo de lentilha ou feijão. A entrada será um pepino com iogurte – mas não da forma convencional. Depois uma gema de ovo com inhame e lascas de carne seca, que vão lembrar presunto cru. E então algum peixe local bem fresco, com sagu, tucupi e toucinho. Depois um leitão de leite com mandioquinha. E, para finalizar, uma goiaba em cal com queijo. Mas só na hora mesmo pra saber o que temos em mãos, o que se pode fazer.
Para quem quiser ter um gostinho de Mugaritz sem atravessar o Atlântico, ainda há vagas para o Park Hyatt Masters of Food & Wine, em Mendoza. O evento, que acontece entre 22 e 25 de março, reunirá chefs e sommeliers de diversos países das Américas (EUA, México, Chile, Argentina e Brasil). O pacote, a partir de US$ 2000 por pessoa (sem aéreo), inclui três noites no Park Hyatt e almoços e jantares em vinícolas. A programação completa está aqui.
Publicado originalmente no blog Mesa ou Balcão?, da revista ALFA.
No ICI Bistrô, a então sommelière Daniela Bravin sempre dava um jeito de me dissuadir das minhas próprias escolhas. Ora ela oferecia um rótulo mais curioso, ora uma garrafa que ia melhor com a refeição. Nunca me arrependi. Com seus conselhos, aprendi que posso gostar de um ou outro Carménère, que há vinhos bons em todas as faixas de preço, que há brancos incríveis no Uruguai.
Faz duas semanas que a – agora – restauratrice abriu sua própria casa. O Bravin fica num antigo casarão de Higienópolis. É um restaurante no andar superior, e um wine-bar no andar de baixo. Um wine-bar que já sai disparado como um dos melhores da cidade. A seleção musical é ótima (jazz, com chorinho, com bossa), o espaço tem pequenas mesas com boas poltronas pra se esparramar, e – fator que contou muitos pontos – são servidas as fantásticas águas mineiras Cambuquira (com gás) e Caxambu (sem gás).
Há também ótimos vinhos, claro. A adega conta hoje com 200 rótulos. Cerca de vinte sugestões são escolhidas para formar cartas diferentes todos os dias. É uma forma simpática de não oprimir a gente com aqueles menus pesados, com índice remissivo, impenetráveis. Há sempre opções de vinhos em taça a R$ 19, R$ 21. Para comer, o wine-bar serve tábuas de frios, bolinhos de bacalhau, de arroz, canapé Blumenau…
Num jantar na nova casa, mesmo diante da minha cara de desconfiança, Daniela fez de tudo para que eu trocasse um confiável Rioja por um tinto brasileiro.
Ao menos, dessa vez, ela me deu duas opções: ou o Minimus Anima, do enólogo-e-louco Marco Danielle, ou um desconhecido Éléphant Rouge, de Jean Cara.
O Minimus Anima foi uma revelação. O tinto de Encruzilhada do Sul (RS) é um corte inusitado de Cabernet, Tannat supertardia, Alicante Bouschet e Merlot. Durante a refeição ele evoluiu tão rápido, mudou tantas vezes na taça, que é de deixar qualquer um doidão.
Na empolgação, acabei provando também o preterido Éléphant Rouge. Era um tinto menos heterodoxo (um corte de Cabernet, Merlot e Pinotage), mas igualmente bom, muito bem integrado em seus 12,5º de álcool.
Aconteceu o que deveria acontecer. Saí do jantar com mais um ensinamento, com menos um preconceito: vinho brasileiro pode ser bom, vinho brasileiro pode ser realmente especial. A sommelière terrible está de volta.
Bravin
Rua Mato Grosso, 154
(011) 2659-2525
2ª a 6ª: 19h-1h
Sáb: 15h-1h
Publicado originalmente no blog Mesa ou Balcão?, da revista ALFA.
Na próxima segunda-feira (5) começa mais uma Restaurant Week em São Paulo. O evento, que já está na sua 10ª edição, está maior que nunca. São mais de 200 casas servindo menus completos (entrada, prato principal e sobremesa) a preços promocionais: R$ 31,90 no almoço e R$ 43,90 no jantar, fora a taxa de serviço. Também não entra nesse valor a contribuição sugerida de R$ 1 para uma instituição beneficente.
Quem já participou do evento em outros anos deve ter experimentado o real sentido da expressão “o barato sai caro”. Os restaurantes se apinham de gente e a espera pode ser infernal. A qualidade da comida e do serviço varia muito. E o mais triste: algumas casas usam a Restaurant Week simplesmente para fazer caixa, e se esquecem da ideia original do evento, que é conquistar novos clientes e agitar o mercado de restaurantes da cidade.
Na tentativa de ajudar os gastromaratonistas da SPRW, escolhi algumas casas que acredito ser as boas apostas dessa edição. São 14 restaurantes, um para cada dia do festival, que termina no domingo, 18 de março.
E nunca é demais relembrar: sempre ligue para o restaurante com antecedência para tentar cravar uma reserva. Não há sobremesa – ou desconto – que consiga adoçar o humor de quem amargou horas de espera por uma mesa.
AK VILA
Por quê? O restaurante da chef Andrea Kaufmann recebeu no ano passado o prêmio de melhor variado pela Veja SP. A casa é um oásis de boa comida no centro da boêmia Vila Madalena.
Quando é melhor? No almoço. A casa não participa da SPRW no jantar.
O que apetece no menu? Falafel com tahine, pão pita e salada mediterrânea.
ARABIA
Por quê? É o único restaurante árabe da cidade estrelado pelo Guia Quatro Rodas.
Quando é melhor? No jantar, pois as opções do menu são mais variadas.
O que apetece no menu? Berinjela assada com tomilho, coalhada temperada e sementes de romã.
BRASERO AMATXU
Por quê? Faz parte de um grupo basco de restaurantes. Usa com muita competência a grelha sobre brasas para preparar carnes e frutos do mar. Os pratos saem da cozinha com um suave e delicioso defumado.
Quando é melhor? No almoço. O salão fica mais bonito com luz natural.
O que apetece no menu? Espeto de filé na brasa com batatas bravas.
GOVINDA
Por quê? Esse restaurante do Brooklin vale a viagem para fora do eixo gastronômico da cidade. As esculturas de divindades, os tapetes coloridos, a mobília típica no salão dão um tempero a mais na melhor cozinha indiana de São Paulo, segundo o Guia Quatro Rodas.
Quando é melhor? No jantar. Tente combinar curry com esse calorzão de meio-dia…
O que apetece no menu? O delicioso pão naan, feito com iogurte e assado no forno tandoor, acompanhado de uma seleção de chutneys.
HIDEKI SUSHI
Por quê? O chef Hideki Fuchikami é sinônimo de bons sushis a mais de uma década. Abstraia a estranha localização dessa sua nova casa, no Bexiga, cercada de cantinas italianas.
Quando é melhor? No almoço. O menu do jantar, em comparação, não parece valer os R$ 12 a mais.
O que apetece no menu? Tirashi Sushi (10 fatias de peixes variadas sobre arroz de sushi)
OBÁ
Por quê? É o restaurante que sempre se sai bem na SPRW. Sei de muita gente que conheceu o Obá durante o festival e virou habitué. Pode ir com fé.
Quando é melhor? No jantar. O menu da noite tem pratos principais mais interessantes que os do almoço.
O que apetece no menu? Peixe ao molho de cupuaçu, com castanha do Pará, servido com arroz de jambu.
P.J. CLARKE’S
Por quê? A filial da mítica casa novaiorquina tem um dos melhores hambúrgueres da cidade. Vale conhecer.
Quando é melhor? No almoço, quando o hambúrguer tem melhor relação custo-benefício.
O que apetece no menu? The Cadillac (cheeseburger com bacon, salada, alface e batas fritas).
PING PONG ITAIM
Por quê? Serve em um ambiente bonitão – com cenografia bem Itaim – os divertidos dim sums (pasteizinhos chineses).
Quando é melhor? No jantar. A seleção de dim sums da noite parece mais interessante.
O que apetece no menu? Sticky Rice (arroz glutinoso embrulhado em folha de lótus).
SHINTORI
Por quê? Só pelo ambiente, o Shintori vale uma visita. A casa já abrigou um dos mais espetaculosos restaurantes de São Paulo, o Suntory. Não deixe de dar uma espiada no belo jardim japonês do pátio interno.
Quando é melhor? No jantar. A casa só participa da SPRW à noite.
O que apetece no menu? Yuzu lemon pie (torta de limão siciliano perfumado com yuzu, fruta cítrica japonesa).
TANGER
Por quê? É o melhor marroquino de São Paulo, segundo o Guia Quatro Rodas. Mudou-se no ano passado para uma casa mais aconchegante – mas em um lugar mais muvucado – ao lado do bar Jacaré Grill, na Vila Madalena.
Quando é melhor? No almoço, porque tem tagine, preparação que é símbolo do Marrocos: as carnes ganham um perfume incrível depois de cozidas lentamente com temperos.
O que apetece no menu? Tagine de frango com amêndoas e ameixas, acompanhado de cuscuz marroquino.
TEMPLO DA CARNE
Por quê? Desde 1979, o restaurante de Marcos Guardabassi é um endereço certeiro para quem procura boas carnes.
Quando é melhor? No jantar, quando o restaurante participa da SPRW.
O que apetece no menu? Miolo de alcatra com farofa especial.
TORDESILHAS
Por quê? Com mais de duas décadas de história, é o restaurante paulistano que melhor representa a diversidade de cozinhas do Brasil. A chef Mara Salles é um patrimônio – uma pesquisadora incansável – da gastronomia nacional.
Quando é melhor? No jantar. O restaurante só participa da SPRW à noite.
O que apetece no menu? Cuscuz de farinha ovinha de Uarini (AM) com camarão e vegetais.
TRATTORIA PICCHI
Por quê? O chef Pier Paolo Picchi se orgulha de suas massas frescas, preparadas geralmente na hora do pedido, em uma sala climatizada à vista dos clientes.
Quando é melhor? No jantar. Só participa da SPRW à noite.
O que apecete no menu? Capellini com feijão branco e ragu de linguiça.
TWELVE BISTRÔ
Por quê? Em Pinheiros, a pequena casa do chef australiano Greigor Caisley é um dos poucos endereços na cidade a aliar comida acima da média com uma boa carta de cervejas. São mais de 25 rótulos de todo o mundo.
Quando é melhor? No jantar, quando o menu é mais interessante.
O que apetece no menu? Paleta de cordeiro com risoto milanês.
Publicado originalmente no blog Mesa ou Balcão?, da revista ALFA.
Não dou sorte na Dias Ferreira. Os restaurantes da rua mais agitada do Leblon são bonitos, animados, cheios de bossa… mas suas cozinhas nunca chegaram a me emocionar.
Há um mês, no número 147, inaugurou um filhote do Quadrifoglio, um dos melhores restaurantes italianos do Rio. Seria o fim da minha má sorte com a rua?
O Quadrifoglio Caffè fica aberto todos os dias, sem intervalo: das 9h às 11h30 da manhã é servido um menu de café da manhã, depois entra um cardápio mais convencional, com saladas, sopas, massas e carnes. A proposta, que mais lembra room service de hotel, pode causar desconfiança à primeira vista.
Fiquei animado ao ver o pequeno salão, todo envidraçado, ainda vazio às 13h. “Mas já está tudo reservado”, informou o garçom. Coisas da Dias Ferreira. Por sorte, as mesas na calçada pareciam bem convidativas para o almoço de um domingo não tão quente.
O cardápio é curto, simples, sem preparações muito elaboradas. O que, tendo em vista o funcionamento non-stop da casa, pode ser uma grande vantagem. Há sempre uma e outra sugestão do chef fora do menu, que valem ser consideradas.
Foi simpático encontrar manjubinhas – esse clássico de boteco – na Frittura di Mare (R$ 28), junto de lulas e camarões. Tudo incrivelmente fresco, com a fritura leve, bem feita, sem excessos.
Arroz negro é daqueles ingredientes perigosos, com gostosura inversamente proporcional ao número de garfadas dada. O que começa bem vai se tornando enjoativo e pesado com o avanço da refeição. O saboroso Riso Nero (R$ 42), porém, foi contra as piores previsões e combinou demais com o espinafre, o frescor dos tomates sem pele e com a leveza carnuda do bacalhau fresco. Havia também cebolas empanadas de guarnição, que davam uma animada na textura do prato.
O linguado (R$ 51), apesar de bastante fresco, podia estar menos cozido. Sua crosta de ervas e castanha do pará merecia menos óleo. O acompanhamento, um bom risoto de limão siciliano, amenizou o pior custo-benefício do almoço.
De sobremesa, a torta de queijo (R$ 19) era de gente grande. Não no tamanho (por sinal, bem pequeno), mas no seu sabor muito equilibrado e na sua textura supercremosa. Ele ainda vinha com açúcar queimado no topo e uma delicada, levíssima massa na base.
Dias Ferreira, aqui me tens de regresso!
Quadrifoglio Caffè
Rua Dias Ferreira, 147
Leblon, Rio de Janeiro
(21) 2294-8749
Publicado originalmente no blog Mesa ou Balcão?, da revista ALFA.
Tudo é diferente no livro gastronômico com fotos de Sergio Coimbra e introdução da jornalista Luciana Bianchi lançado no final do ano passado.
Pra começar, o livro não tem nome. Também não tem preço: a tiragem de 1000 exemplares será toda distribuída para chefs de cozinha e personalidades do ramo. O livro vem em dois volumes de 127 páginas que devem ser abertos juntos, para formar duetos ou quartetos de imagens.
Imagens de fazer babar, diga-se. Com a luz impecável de Sergio Coimbra, um dos melhores fotógrafos de comida do Brasil, é possível enxergar todas as texturas dos ingredientes. Entre no site (onde as imagens estão em seu esplendor full-HD) e veja a maciez das carnes, a crocância dos vegetais, o aveludado dos molhos…
Nomes de peso como Massimo Bottura (4º melhor do mundo, segundo a lista da revista Restaurant), Heston Blumenthal (5º melhor), Yonishiro Narisawa (do melhor restaurante da Ásia) contribuíram para o projeto. Do Brasil, não poderiam ficar de fora Alex Atala, Rodrigo Oliveira, Pier Paolo Picchi.
“Os chefs convidados tiveram total liberdade para experimentar diante da câmera, como numa sessão de jazz” me explicou Luciana. Às vezes montavam signature-dishes, outras vezes criavam verdadeiras instalações comestíveis. Rodrigo Oliveira (do brasileiríssimo Mocotó) preparou sua deliciosa mocofava. Yonishiro Narisawa (do Les Créations de Narisawa, em Tóquio) montou uma instalação – comestível? – que discutia o desmatamento e a forma como produzimos comida atualmente.
É interessante ver a justaposição de pratos que existem de verdade (que constam no menu dos restaurantes) com as tais “improvisações jazzísticas”.
O que você enxerga nessas cenas assinadas por Alex Atala? Comida ou arte?
São, na verdade, dois signature-dishes do D.O.M.: Lulas cozidas a frio e Ravioli de limão e banana-ouro.
Não há um limite claro entre o que é saboroso, o que é belo, o que é discurso artístico.
Para os que pensam a alta gastronomia como arte, o livro-sem-nome é um prato cheio.
Publicado originalmente no blog Mesa ou Balcão?, da revista ALFA.
Quanto mais vou devorando sushis, mais encano, não com o peixe, mas com o arroz. Isso porque a qualidade e a diversidade dos peixes nos restaurantes japoneses de São Paulo têm melhorado muito. Mas uma atenção especial ao arroz ainda é coisa rara.
Cada sushiman tem a sua própria receita do shari (como os japas chamam o arroz do sushi): o tipo do grão usado, o jeito de cozinhar, a proporção entre vinagre e açúcar no tempero, macetes na hora de resfriar o arroz… Dá para reconhecer o talento de um sushiman na textura, no tempero de um bom shari.
O contrário também é verdadeiro. O peixe pode ser fresquíssimo, bem cortado. Mas se o arroz está açucarado demais, parece papa de neném de tão cozido, pode-se decretar sem dó que o sushiman não está à altura daquele lustroso atum gordo. Pobre do peixe que morreu em vão.
Se o arroz tem o fino equilíbrio agridoce, se os grãos são firmes na mordida, mas se evaporam em amido – que faz a boca salivar ainda mais –, o sushi é uma revelação. É quando o homem finalmente faz jus às iguarias do mar, mais e mais escassas.
Um exemplo? No recém-inaugurado Aze Sushi, na rua Dr. Renato Paes de Barros, o sushi é dos melhores, sem os absurdos preços de casas mais famosas (as duplas de niguirizushi saem de R$ 10 a R$ 25). O mérito é de Edson Yamashita, que saiu recentemente do ShinZushi, um dos templos da comida japa em São Paulo.
Por conta do fantástico shari do Aze Sushi, deu pra ignorar o ambiente meio balada – coisa do Itaim. Consegui até abstrair não uma, não duas, mas três! tevês acima do balcão, exibindo no repeat um show do Capital Inicial – o Dinho Ouro Preto cantando fora de hora “não consigo me concentrar… sob um leve desespero que me leva, que me leva daqui”.
O AzeSushi já estreou como um dos melhores sushis da cidade – ao lado dos pesos-pesados como Jun Sakamoto, o Hamatyo, o Kinoshita, o ShinZushi. Só que mais em conta.
Aze Sushi
R. Dr. Renato Paes de Barros, 769
Tel: (11) 3071-2047
Publicado originalmente no blog Mesa ou Balcão?, da revista ALFA.
Em dezembro, o pequeno restaurante Chef Vivi abriu as portas sem muito alarde na rua Girassol, na Vila Madalena. A simpática casa, com muita luz natural e uma bonita cozinha envidraçada ao fundo, é o primeiro restaurante da chef Viviane Gonçalves em São Paulo.
Isso não quer dizer que lhe falte experiência. Ela cozinhou por muito tempo longe daqui. Foram dez anos tocando fogões na Inglaterra e na China. Lá em Pequim, comandava o restaurante Alameda, premiado pela imprensa local como um dos melhores da cidade.
Mas São Paulo não é Pequim. O nosso selvagem e impiedoso cenário gastronômico pode estranhar certas ousadias:
1. Cardápio que muda todo dia pode incomodar por aqui. No Chef Vivi, o menu varia de acordo com os produtos mais frescos do dia. Mas como fica a vontade do povo que quer comer a mesma coisa o ano todo? Não vai ter jabuticaba em julho? E como dar uma de entendido pro amigo, recomendando tal prato “pra comer de joelhos”?
2. Maxixe não é comida de restaurante chique. O Dalva e Dito até serve o dito-cujo, mas bem disfarçado no meio de outros vegetais. Que coragem servir a hortaliça crocante, quase crua – meu deus! –, junto de lulas supermacias e frescas (R$ 29,50).
3. Cogumelo eringue não é coisa de menu ocidental. Nunca tinha visto esse cogumelo gigante, supersuculento e delicioso em uma casa não japa. Muito menos com arroz vermelho al dente e queijo grana padano em lascas (R$ 31,50).
4. Talos de erva-doce praticamente crus – extremamente aromáticos e herbáceos – como acompanhamento da posta de peixe (R$ 49,50)?!?
Onde a chef Viviane Gonçalves quer chegar com todo esse disparate?
Não sei quanto a você, mas eu acho que o restaurante merece o posto de melhor novidade gastronômica de São Paulo. Há frescor em tudo: não somente nos ingredientes, mas também na manipulação dos produtos (vegetais cozidos rapidamente – coisa de chinês), na apresentação dos pratos (com muitos brotos e flores, mas sem cair na “cozinha de mulherzinha”), na harmonia das receitas com ingredientes inéditos.
Chef Vivi, seja bem-vinda à cidade!